sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Construção do eu Multifário

NICOLE MARKOWSKI

A casa de hóspedes

O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã é uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido
como visitantes inesperados.
Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.  -  Rumi


E se pudéssemos ser o que quiséssemos?
Quando perguntamos ''o que você é'' a alguém, as respostas são bem diretas e variadas, podem dizer sou estudante (ou qualquer outra ocupação), ou então afirmar sou feliz (ou qualquer outro estado ou característica). Vejo pelas respostas dadas, dois pontos a serem problematizados: Na primeira houve um equívoco. Essa resposta caberia se a pergunta fosse o que você faz. Na segunda, como a resposta remete a sentimento, estado, o melhor seria dizer que você está feliz - o que dá a entender que é momentâneo, e mesmo assim não responderia a questão.
Fica claro que a pergunta ''o que você é'', confunde-se com as perguntas ''o que você faz'', ''como sou'' e ''quem sou''. Convenhamos também, que essas questões não são facilmente solucionadas. Esse tipo de problemática, de certa forma, gera um desconforto para os indivíduos, são questões pertubadoras. Não conhecer suas origens, olhar-se no espelho e não reconhecer-se como tal é inquietante. Mas como ainda não foram dadas as respostas para essas questões que dito como primordiais, ou melhor, iniciais, já que o homem se diz diferente dos demais animais por ser de uma espécie racional, não só capaz de pensar, mas sim capaz de controlar, possuir e produzir tudo? Estamos com a tecnologia avançada,  mas quando nos deparamos com um convite de reflexão tal qual como este, ficamos sem respostas.
           ''Uma pessoa é uma coisa muito complicada. Mais complicado do que uma pessoa, só duas. Três, então, é um caos, quando não é um drama passional. Mas as pessoas só se definem no seu relacionamento com as outras. Ninguém é o que pensa que é, muito menos o que diz que é [...]. Ou seja, ninguém é nada sozinho, somos o nosso comportamento com o outro.''  -   Luiz Fernando Veríssimo
Ao explicitar o que somos para alguém, ou até mesmo como somos, acabamos, sem querer, nos limitando, limitando nossos pensamentos em meras palavras. Não somos tudo aquilo que dizemos ser, muito menos o que pensamos ser. Os pensamentos vão muito além daquilo que pode ser verbalizado. Desta forma, podemos ser o que gostaríamos que fossemos, ou o que imaginamos ser, afinal, no mundo dos pensamentos, das ideias, podemos ser e fazer tantas coisas [...]. É de fato, um mundo ilusório. Neste caso, seríamos apenas ideias, hipóteses, fantasias. A nossa imaginação nos confunde, não é difícil misturar o real do fictício. Um exemplo disso são nossas ''falsas memórias'', nossos descuidos - (lapsos).
O que pode nos definir, então, é nosso comportamento com o outro, nossas ações, nossas práticas diárias. Mas como nos definir assim, se somos seres mutáveis, em constante mudança? Hoje posso estar de tal maneira, mas amanhã posso estar do avesso. E quem me garante que o avesso não possa ser o meu lugar? Somos um milhão de eus compactados em um só corpo. Isso me faz pensar que somos artistas, pois em cada momento de nossas vidas interpretamos um papel diferente. Não fazemos as mesmas coisas quando estamos no trabalho e quando estamos com os amigos, ou em uma hora de lazer. Mas acredito na essência, temos esse um milhão de eus, ''o lado bom e o lado mau'' mas só florescem aqueles que nós, ou alguma força maior (para quem acredita), permite   que atue. Nossos prazeres são limitados pelo meio, acabamos nos moldando de acordo com o que nos é proposto. Aí a importância de sermos leves e líquidos - (flexíveis).
Somos inconstantes, líquidos, sólidos, leves e pesados. A cada dia um novo espetáculo a ser apresentado, mas não podemos ficar esperando pelos aplausos. O que se deve fazer, é despertar o interesse  das pessoas para que continuem querendo saber qual será o fim da história.
 Não deves te preocupar com essas mudanças, apenas deves aceitá-las. Ao contrário do que se pensa, isso acontece com todos. (Mania do ser humano achar que todas as coisas ruins só acontecem com ele, que a ''grama do vizinho é sempre mais verde''). Os sentimentos estão aí, soltos, esperando fazer a diferença na vida de alguém. Às vezes não encontramos um motivo, tampouco, sentido para aquilo que sentimos, só sabemos que em algum lugar eles está vivo em nós, e por vezes ele vem de um modo avassalador, assim mesmo, sem pedir licença, sem avisar. Nessas horas a única coisa que se tem a fazer é sentir. Deixar varrer e tirar os móveis do lugar. Por mais estranho que possa parecer, os sentimentos são também uma forma de sintoma, que impede que coisas piores possam vir a te fazer algum dano. É um preparo para um novo prazer, para um novo gozo. Se as pessoas soubessem ver o lado bom dos acontecimentos, muita coisa seria diferente, arrisco dizer que seriam até mais felizes.
Graças a essas combinações que hospedam o eu, que somos o que somos. Somos considerados como seres únicos, também por essa razão. Imaginem que chato seria se fossemos sempre a mesma pessoa, se não ficássemos loucos em algum momento, se não houvesse um contraste para contrapor o sentimento de hoje com o de amanhã ou o de ontem. Isso sim não faria sentido.


Entre os (des)equilíbrios
 Muitos podem achar que ser perfeito é estar em um estado de equilíbrio, ponderação. Que assim podem encontrar a sua felicidade tão almejada. Perfeição, segundo o dicionário, quer dizer feito até o fim; acabado; completo; sem defeito. Agora pergunto: podemos, nós, sermos completos? - Não! Não somos totalmente preenchidos, podemos ter uma sensação de vazio, e acreditar tão fielmente nela. Também não somos inteiros. Não somos retos, e nem uniformes. Realmente, se tem uma coisa que não somos, ou melhor, duas coisas, é sermos perfeitos e equilibrados.
Sinceramente não vejo razão para sermos perfeitos, a grande jogada está em sabermos lidar com as nossas imperfeições e as imperfeições do outro – coisa que também não é fácil - . Mas o que pode ser perfeito? Se é que ele existe. Só posso dizer que depende da crença de cada um, principalmente dos olhos de quem vê, de como vêem.
      
[...] O desequilíbrio é o que emociona. - Tati Bernardi
 Tomamos como exemplo a lua. A maioria das pessoas a contemplam. A vêem como um fenômeno cheio de esplendor. Certamente sabem que ela passa por fases, e que essas fases são temporárias, e que seu formato entra em constante mudança. Em uma semana ela está cheia, em forma redonda, noutra vai minguando, ficando pela metade e assim se dá o ciclo. E mesmo tendo esse conhecimento, as pessoas a julgam perfeita. O mesmo podemos dizer das estrelas. E por que há tanta cobrança em nós, seres mortais, para sermos pessoas equilibradas e perfeitas, se até mesmo os astros tem suas imperfeições? É natural que não saibamos acomodar tantos hóspedes em nosso lar, concordo que seria de bom grado se soubéssemos lidar com tantos eus. Mas é para isso que serve o jogo de cintura.
Tendo em vista o exemplo dos astros, podemos pensar que o perfeito é ser imperfeito. Por quê não? Muita coisa pode ser pensada a partir desta observação: Todo mundo passa por fases, é inevitável, porém, são temporárias. Não somos as mesmas pessoas de cinco anos atrás, mudanças fazem parte da vida, e sim, são bem-vindas. Mas torno a dizer que devemos voltar o nosso olhar para o lado positivo das coisas, só assim aprenderemos e cresceremos. Nos tornaremos indivíduos experientes.
Parece até que não gostamos da perfeição, pois a  trocamos pelo imperfeito, mas a busca por tal sempre continua. A inconstância é o que nos motiva, a mutualidade nos impressiona, o desequilíbrio emociona.
A subjetividade da felicidade
 A preocupação pela busca da felicidade não é assunto atual. No tempo de Aristóteles a Eudaimonia (bem-viver; felicidade plena; o bem maior) já era algo desejado, porém, existiam grupos filosóficos com diferentes Eudaimonias: Para Aristóteles, era ser magro, ter suficiência monetária, vestir-se bem. Para os Cínicos, era a natureza. Rejeitavam qualquer tipo de costume, religião, habitação, enfim, convenções.
Até hoje a felicidade continua sendo o grande almejo das pessoas, e cada uma delas a encontra (ou crê que a encontra) em diferentes momentos e situações, sendo assim, subjetiva.
Há quem diga que só existe felicidade nos momentos compartilhados, outros como Sigmund Freud, dizem que na verdade não estamos programados para a felicidade:
    
''Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação lépida de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado.'' (Freud, 1929, p.28)
Ou seja, só sentimos prazer quando temos um contraste de sentimentos, por consequência      o sentimento de bem-estar hospeda o indivíduo. A permanência do estado não nos causa felicidade.
É uma pena que muitos de nós só reconhecemos o sentimento de felicidade ou qualquer outro, quando este já não nos habita mais, mas sim o seu sentimento oposto. Isso me leva a crer na hipótese de Freud, que reconhecemos um sentimento como tal e sentimos prazer quando o sentimento se contrapõe, e não quando o sentimos continuamente.
Considero inadequado quando dizem sou feliz (retomando a problematização do início do escrito), pois quando se usa o termo''sou'' , a ideia que se passa é de permanência. Ninguém é feliz todo dia. O que pode vir a acontecer é estar se sentindo feliz em algum momento, uma ideia mais temporária.
O desejo que temos de sempre querer mais que ontem, e nos deslumbrar com a expectativa de um futuro mais feliz e mais rico, cheio de ''mais e mais'', torna-se mais claro quando compreendemos que toda satisfação vem seguida de um novo desejo e uma nova necessidade. Então qualquer e toda felicidade que pode estar sendo hospedada em um indivíduo, não será o bastante. Por essas e outras que sempre andamos em busca dessa felicidade que seria ''ideal'' – sem limites.
Mas algumas coisas acabam por limitar nossa incessante busca pelo prazer e pela felicidade, uma delas é a realidade. Freud diz que se quisermos ser felizes em qualquer sentido, teríamos que cortas quaisquer relações com a realidade, pois esta seria a fonte de todo o sofrimento. Por conseguinte, o delírio faria parte dessa relação, e quem toma parte deste delírio, obviamente, não se reconhece como tal.
A cultura seria também um meio de sofrimento e culpa. Culpa no sentido de não suprir as expectativas das pessoas como um todo – sociedade. Não se adaptar, ou não concordar com as normas e costumes locais por exemplo. A civilização nos oprime, nos limita. O próprio ato te tentar-mos  afastar o sofrimento, já seria uma forma de ser/estar feliz.
A felicidade, pra mim, está nas coisas mais simples, nos gestos mais simplórios, os quais julgo serem mais verdadeiros. Teríamos que nos contentar com o que temos hoje, não com o que poderemos vir a ter no amanhã. - ''Feliz daquele que se contenta com pouco''.
Não existe um caminho para a felicidade, muito menos uma receita de bolo, só acho que há obstáculos demais tentando impedir as pessoas de serem felizes, quando na verdade ser feliz sem motivo é a melhor e mais autêntica forma de felicidade.

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